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A Praia do Campeche
Pouca
gente sabe, mas a Praia do Campeche recebeu um dos seus mais ilustres
visitantes em 1929: o autor do Clássico O Pequeno Príncipe, Antoine
de Sant-Exupéry. Durante três anos, enquanto realizava a linha de
transporte aéreo da Europa até Buenos Aires, nas escalas em Florianópolis
fez estreitos laços de amizade com um simples pescador do local,
Manoel Rafael Inácio, que faleceu há oito anos, com 84 anos. Todo
o relato da aventura do escritor é feito por Getúlio Manoel Inácio,
49 anos, filho de Manoel. Ele conta que, como não conseguia pronunciar
o nome, Exupéry era chamado pelo pescador de “Zé Perri”.
Exímio
aviador era diretor da Companhia Generalle Aeropostale de Buenos
Aires. O pequeno aeroporto no Campeche era escala obrigatória para
o aviador, que passava semanas inteiras na ilha. Segundo Getúlio,
pouco mais de 20 famílias residiam no local naquela época. Exupéry
era visto apenas como uma pessoa tímida, reservada e um grande apreciador
da culinária dos nativos. “Papai já dizia que ele lia o tempo todo
e, quando não estava sobre os livros, adorava ficar horas em frente
ao forno de nossa casa conversando e esperando o bijú, além de constantemente
passar pelas dezenas de engenhos da região”, lembra Getúlio.
Os
primeiros contatos foram por mímica, até “Zé Perri” dominar um pouco
mais a língua dos nativos. O pescador era a única pessoa com quem
o estranho aviador mantinha contato. Os laços eram estreitos, costumavam
preparar caldo de peixe freqüentemente e ainda pescavam, caçavam
e contavam anedotas.
Ninguém o conhecia como o escritor e a notícia da morte de Exupéry,
na manhã de 31 de julho de 1944, em plena Segunda Guerra Mundial,
só chegou dois meses depois. Os escritos de Exupéry se espalharam
pelo mundo e foram traduzidos em mais de 100 países. Após muitos
anos, com a procura de jornalistas e escritores sobre relatos da
passagem do aviador, é que seu Manoel soube dos outros dotes do
amigo. Mas pouco acreditava que o tal “Zé Perri” era de fato escritor.
Getúlio reclama que seu pai foi ridicularizado a vida toda.”Achavam
que ele era louco e, até mesmo um jogo de mesa que Zé deixou para
meu pai e que estava exposto no aeroporto, foi queimada”, conta
Getúlio.
O
pescador teve 14 filhos, 120 netos, 80 bisnetos e 10 taranetos na
praia do Campeche, e a amizade entre ele e o escritor vai ser resgatada
por Getúlio, que, desde a infância, ouvia histórias do pai. O livro
“Deco e Zé Perri” será lançado em fevereiro, em parceria com a Universidade
para o Desenvolvimento de Santa Catarina (UDESC), com 70 páginas
de fácil leitura. No final de maio, outro lançamento: o dia-a-dia
dos ilhéus na década de 30, com seus costumes e seu folclore, vai
ser aliado à passagem de Exupéry por Florianópolis.
Há
nove anos, Getúlio, um sob-oficial da aeronáutica aposentado, divide
seu tempo entre a ampla pesquisa do fato e a Banda de Carnaval do
Campeche, onde toca saxofone e clarinete. Ele diz que quer incorporar
definitivamente a passagem de “Zé Perri” à história da praia do
Campeche e de Florianópolis. “Vou pessoalmente vender os livros
para os turistas aqui na praia. Isso não pode ficar perdido. Faço
isso pela nossa cultura e, principalmente, por meu pai, que foi
humilhado por aqueles que não acreditavam nele” conclui.
A
Ilha do Campeche
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